
“Desde cedo, tudo ao meu redor indicava o lugar que eu deveria ocupar.
A escola, a família, a linguagem, os gestos, o corpo.
Nada parecia apontar para a possibilidade de mudança.
Mudar não foi um capricho, nem uma ambição individual.
Foi a única maneira de não desaparecer dentro do destino que haviam escolhido para mim.”
Nos 45 minutos do segundo tempo do ano de 2025, consegui me jogar nessa leitura e… seria pura “emoção pós-leitura” dizer que ela foi a melhor de 2025?
O livro, escrito pelo autor Édouard Louis (2021), é o que Moraes e Cruz (2025) vão chamar de autossociobiografia. Uma tentativa bem-sucedida de realizar uma análise sociológica da própria história de vida como um sujeito nascido no norte da França, em condições de extrema pobreza e sem perspectivas, não fosse sua vontade arrebatadora de se sentir pertencente a alguma outra realidade onde fosse possível ser visto e amado, além de, é claro, ascender socialmente e fugir do futuro miserável ao qual o histórico familiar lhe empurrava.
O autor constrói um retrato crítico do eu ao revelar que a subjetividade não se forma isoladamente, mas no interior das relações concretas que produzem normas, exclusões e expectativas, fazendo da experiência pessoal um lugar de inscrição social. Essa é sua grande pauta nesse livro.
O Édouard que existe hoje é atravessado pelo Eddy nascido em Hallencourt e que, de 1992 para cá, se inquieta com a realidade à sua volta e se movimenta para transformá-la. Metamorfose, como chama o autor, que se deu a partir de suas experiências com o grupo de teatro, depois com a amiga Elena e sua mãe Nadya, depois com a universidade e o amigo filósofo Didier, até passar por seus parceiros sexuais e românticos em Paris, acessar a renomada École Normale Supérieure e transformar sua luta em um livro que mudaria para sempre a sua vida.
Devorei essa obra em um final de semana porque me aproximei de Édouard como se fôssemos amigos. Eu queria saber, com urgência, de todos os seus movimentos para fugir do seu destino previamente definido pelo Estado.
Apesar das referências implícitas às obras de Bourdieu, Foucault, Durkheim e, claro, Annie Ernaux, a leitura não é complexa nem demorada. As 230 páginas são fluidas e intrigantes, é como ouvir um amigo contando suas próprias impressões sobre um acontecimento da vida. Édouard foi excelente em conseguir traduzir sua crítica social e política em literatura, quase um romance.
Essa não é só uma história pessoal, é uma história social. Quando Édouard incorpora o personagem ao seu EU, ele fala de um contexto histórico e social de um coletivo.
10/10, com certeza.
Para quem se interessa por um olhar mais psicanalítico sobre o livro, deixo a referência:
MORAES, Maria Eduarda Freitas; CRUZ, Maria Ottilia Rodrigues. A enunciação do eu na autossociobiografia: uma leitura de Mudar: método (2021) de Édouard Louis. Revista Leitura, n. 85, p. 83-94, 2025. Disponível em: https://ufal.emnuvens.com.br/revistaleitura/article/view/19224/13027
Esta seção destaca o propósito do blog, oferecendo histórias envolventes, opiniões de especialistas e insights valiosos para os leitores aprenderem e crescerem.
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Mudar: método – Édouard Louis (2021)
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